etólogo austríaco Karl von Frisch, reconhecido principalmente por seu trabalho em comportamento de abelhas (foi ele quem descreveu pela primeira vez a dança das abelhas), acidentalmente descobriu a reação de alarme dos peixes quando trabalhava com um pequeno ciprinídeo europeu Phoxinus phoxinus (FRISCH, 1938). Estava ele investigando as atividades auditivas dos peixes quando, após introduzir um indivíduo operado no aquário em que trabalhava, percebeu uma nítida reação de "susto", a qual vem sendo estudada desde então como a "reação de alarme" dos Ostariophysi (PFEIFFER, 1977, 1982; SMITH, 1982a, 1986b, 1992).

FRISCH (1941) chamou tal fenômeno pelo nome de "Schreckreaktion" (do alemão: Schreck = susto + Reaktion = reação), sendo denominado neste trabalho Reação de Alarme ou simplesmente RA. A substância que ativa esta reação, primordialmente denominada por FRISCH op. cit. "Schreckstoff" (do alemão: Schreck = susto + Stoff = matéria), será doravante chamada de Substância de Alarme ou simplesmente SA, sendo produzida e armazenada em células claviformes especiais da epiderme dos peixes, descritas e denominadas por PFEIFFER (1960) "Schreckstoffzellen" (do alemão: Schreck = susto + Stoff = matéria + Zellen = célula),  daqui para diante chamadas de Células de Substância de Alarme ou CSA.

In natura, a reação de alarme parece ocorrer quando indivíduos são atacados e têm sua pele machucada. Esse fato faz com que as células claviformes sejam rompidas e liberem a substância de alarme na água, onde é percebida pelos demais membros do cardume. Estes exibirão atitudes específicas e próprias àquela espécie ou população, as quais, em geral, envolvem um estado de pânico generalizado entre os indivíduos próximos, os quais em muitos casos podem pertencer a espécies distintas mas filogeneticamente próximas (SMITH, 1977).

A variação de intensidade na reação de alarme pode ocorrer de forma proporcional à distância filogenética (PFEIFFER, 1962, 1963a, 1966, 1977, 1982; SMITH, 1977, 1982a, 1986b, 1992), sugerindo que seu estudo possa acrescentar subsídios rumo a uma melhor compreensão da afinidade entre espécies ou grupos.

Além desta importância, afora o fato de pouco se conhecer a respeito dos peixes nativos da região Neotropical, deve-se chamar a atenção também para o que a reação de alarme não foi estudada ainda em todo o seu âmbito. VERHEIJEN (1956) sugere a aplicação deste tipo de estudo em análises ambientais, principalmente quanto a poluentes. Fora alguns trabalhos abrangendo o assunto, ressaltando-se LEMLY E SMITH (1986; 1987) e SMITH E LAWRENCE (1988), a situação não mudou muito de lá para cá.

Sem se afastar do caminho que leva aos objetivos específicos deste trabalho, pode-se acrescentar que ele faz parte de um ideal mais amplo, que é o de acrescentar dados ao conhecimento da ictiofauna sul-americana, particularmente a dulcícola brasileira, da qual tão pouco ainda se conhece. Só para enfatizar um pouco do atraso nos estudos e a carência de dados sobre nossa fauna de peixes de água doce, BÖHLKE et al. (1978) faz o triste comentário de que, em termos de coletas e estudos, o que se conhece daqui pode ser comparado ao que foi feito nos rios do Canadá e Estados Unidos em 1900. Logicamente, isto não leva em consideração que a diversidade naquela região (Neártica) é muito menor e os recursos daqueles países muito maiores, o que mesmo assim não justifica os parcos conhecimentos de nossa ictiofauna acumulados nestes quase 100 anos.

REFERÊNCIAS

DUBOC, L. F. 1995. Reação de Alarme em duas Espécies do Gênero Mimagoniates (Ostariophysi, Characidae, Glandulocaudinae). Curitiba, Departamento de Zoologia, UFPR. (Dissertação de Mestrado não publicada).

FRISCH, K. von. 1938. Zür Psychologie des Fish-Schwarmes. NATURWISSENSCHAFTEN 26(37): 601-606.

FRISCH, K. von. 1941. Die Bedeutung des Geruchsinnes im Leben der Fische. NATURWISSENSCHAFTEN 29(22/23): 321-333.

PFEIFFER, W. 1977. The distribution of fright reaction and alarm substance cells in fishes. COPEIA 1977(4): 653-665.




"Schreckreaktion"

A reação de alarme dos Ostariophysi